Trabalhos #1: bar

Ele dança com o passado. Homens não dançam. Ele apenas se movimenta com o passado. Seus passos ecoam a juventude perdida, passada, da época em que os cabelos se mantinham na cabeça. Seu passo é um pouco desengonçado. Homens não dançam. Os braços apontam, mexem empolgados, como se estivesse a jogar moedinhas no palco. Os passos não acompanham os braços. Os quadris tampouco estão no ritmo da batida. Mas a música está ali, na pontinha da língua. A música está ali desde a juventude, a música não se perde. A música fica, os cabelos podem ir, porque a música fica. A empolgação também fica. O show repete uma época boa da vida. É para o passado que ele joga moedinhas. Canta com um ímpeto engraçado. A música não o exige. Não é um rock em que é preciso forçar as cordas vocais, está mais para um pop rock dos anos 80. Música leve, pegada de rádio, mas a intensidade é de rock pesado de longos cabelos e roupas pretas. A blusa polo, a calça jeans sem rasgados, o sapatênis respeitável, tudo destoa da intensidade da cantoria. Está cantando com a voz, as roupas, e as mulheres da juventude. Possivelmente regada a muito mais álcool, hoje em dia é capaz de essa cervejinha cair mal, não há mais disposição para ressaca. E sabe-se lá quanto tempo o joelho tem. Não é a idade, foi o futebol 15 dias atrás. Não precisava daquele lance, aquele no qual o tempo deu uma rasteira, e de repente não há mais cabelos. Ao menos há mais dinheiro. Agora que não é preciso contar o dinheiro da cerveja, tampouco há disposição para beber sem ver. Nem joelhos. Se as pessoas soubessem, cuidariam melhor dos joelhos. Mas ele não cuidou, jogou futebol a vida inteira sem alongar nem aquecer. E a dança, digo, o balanço, também é feito à revelia das exigências do corpo. É que a juventude está logo ali. Quando essa música foi hit, será que ele se lembra? Se lembra do show, das moças que paquerou? Se lembra do ritmo, da animação, da vida toda pela frente? Hoje em dia não se balança mais dessa forma, nesse passo, nesse mexer de braços como se estivesse protestando, com as letras românticas fáceis como hino. Mas ele não se importa. Todos ali se balançam nesse mesmo ritmo, nesse jingado com o passado. Não há tanto cabelo assim nos arredores. A música está na ponta da língua. De todas as línguas. A juventude já escorreu das mãos há mais tempo. Ainda é possível paquerar, mas quantos ali estão solteiros? Poucos. Então a dança não é com a intenção primeira de exibição, de integração com o sexo oposto. Pode ter sido, no passado. E talvez seja essa a lembrança boa que a música evoca. A conquista e a juventude estão completamente ligadas. É quase a mesma coisa. Conquista um telefone, um emprego, um futuro. Agora as conquistas são terceirizadas para os filhos, para os funcionários. Agora a conquista é cantar e balançar a música toda sem dar sinal de que os joelhos estão estalando, a cabeça está girando por causa de duas cervejas e o corpo queria estar cochilando no sofá, boca aberta, sapatos ainda no pé. Mas não. Ele balança e está acordado e se sente jovem. E se sente velho. E se sente jovem e velho. Se sente passado e presente. Se sente hoje e ontem. Amanhã não dá para dizer, talvez os joelhos desistam de vez. Mas ao menos hoje dá para sentir a conquista. Joga moedinhas no passado, para pagar a conta sem chorar desconto! Joga moedinhas na fonte da juventude, dos desejos, dos amores! Joga moedinhas e uma piscada para a moça do lado! A conquista, a vitória, está na dor de cabeça do dia seguinte. Firme. “Ainda dou conta futuro, ainda dou conta.”

Anúncios

O problema do excesso de amor no teatro e na vida acadêmica: como o amor pode colaborar para a precarização do trabalho.

Nesse momento, minha vida profissional está dividida em duas frentes (de batalha pela vida, quase), a área acadêmica e o teatro. E percebo que há uma infeliz semelhança entre essas duas áreas: o excesso de amor.

É isso. Essa coisa de amar o que se faz pode ser muito bom para a realização pessoal e para posts no facebook e para os assuntos nas reuniões familiares e para se gabar para os amigos e para dormir bem à noite. Mas para a área em si, isso é extremamente perigoso.

Vejam vocês, quase todo mundo que trabalha com teatro que conheço ama o que faz, mas sabe muito bem que é quase impossível viver disso. Isso porque tem pouco dinheiro circulando em ainda menos mãos. É raro ter emprego fixo e estável e, quando há, não necessariamente as coisas são encaradas de forma profissional. Com frequência, se você tem uma ideia ou uma peça que quer fazer dar certo, deve se preparar para gastar dinheiro para trabalhar. Gastar dinheiro para trabalhar, perceba, é diferente de investimento. As chances de retorno são muito pequenas, exceto se você tem uma peça de comédia, mas em regra não é com isso que os amantes do teatro sonham. Há uma verdade indesejável, cruel até, mas que se aplica, ao menos para o meu círculo de convivência: só consegue viver de teatro quem já não precisava da renda do teatro mesmo. Quem não precisa de dinheiro, vive de amor e arte e realização pessoal. Mas isso acaba impedindo muita gente boa de entrar nesse mercado, assim como expulsa outros tantos bons que não tem o apoio incondicional dos pais e acaba sendo absorvido pela segunda profissão (quase uma regra entre os amantes dessa arte).

Por outro lado, a vida acadêmica. Recebi esses dias um e-mail com um edital para professor voluntário da Faculdade de Direito da UFMG (que conta com excelentes pesquisadores em direito do trabalho e justiça e constituição e um discurso bonito de se ver). Isso mesmo. Um edital, provavelmente disputadíssimo, para trabalhar de graça esse semestre para a universidade. Uma honra! Não posso julgar os colegas que vão tenta-lo, eu mesma fui professora voluntária no semestre passado. Mas quão tóxico é esse amor pela profissão?

Só consegue ascender na carreira acadêmica quem não precisa do dinheiro por pelo menos 10, 12 anos. A vida acadêmica exige um alto investimento de tempo. Fazer pesquisa é demorado, é lento, exige tempo de ócio, exige muito tempo de leitura, exige tempo para maturação das ideias. Em compensação, os retornos são tristes no curto e médio prazo, e incertos no longo prazo. Você pode investir 10 anos da sua vida estudando e recebendo uma mixaria e, ao final, ganhar o mesmo tanto que se ganha em diversas outras profissões que exigem um investimento de tempo e uma qualificação muito menores.

Aliás, a vida acadêmica, ao menos no Brasil, funciona de forma a criar uma casta, uma oligarquia (na Faculdade de Direito, é impressionante o quanto os sobrenomes se repetem, e não estou falando dos Silvas ou dos Souzas): ser bolsista conta bastante para a ascensão acadêmica, e a bolsa exige dedicação exclusiva, ou seja, pelo tempo que você receber a bolsa você fica impedido de trabalhar em outras coisas. A ideia é que a bolsa seja para você estudar, comprar livros, participar de eventos. Não é relação trabalhista não. Eles te impedem de trabalhar, mas não se dão ao trabalho de te garantir, sei lá, seguro-desemprego. No entanto, qualquer um que já foi a um supermercado e abriu a carteira sabe que comida não cai do céu diretamente no seu prato. Se você tá comendo, tem alguém pagando. Se o dinheiro da bolsa não é para comer, então quem garante seu sustento? Novamente, pais incondicionalmente dedicados e com condição financeira boa o suficiente para que você possa ficar 10 anos, se possível, sem saber fazer uma lista de compras do mês.

E a gente aceita isso? Até segunda ordem, venho aceitando as regras desses dois universos. Trabalho com teatro e sempre fico muito triste quando, em dia de espetáculo, resolvo lanchar alguma coisa e percebo que gastei, para a realização do próprio trabalho, metade do dinheiro que vou receber. E na vida acadêmica, tô aqui, fingindo que isso tudo vai valer a pena no final do caminho porque, sei lá, quem sabe daqui a 7 anos eu consiga ganhar o suficiente para não ter que contar as moedinhas da passagem.

Eu pago as minhas contas com esses dois universos. Mas não se pode dizer que estou tranquila com a minha situação financeira. Teatro não é prioridade de ninguém em época de crise e o governo federal vem brincando de ameaçar cortar a bolsa tem uns três meses. Cada início de mês é uma emoção: cai, não cai, cai, não cai.

Arte e pesquisa não são trabalho não, são outra coisa. Quem precisa de dinheiro é que vá trabalhar.

E por amor né, a gente fica.

O machismo grotesco da minha infância

Quase todo mundo que teve sua infância no início dos anos 90 sente uma certa forma de vergonha nostálgica ao analisar as letras das músicas da banda É o Tchan. Precisamos admitir: era vergonhoso mesmo. As coreografias eram ridículas, as letras eram completamente sacanas e a gente não fazia ideia do que tudo aquilo queria dizer (valeu aí pai e mãe). Aquele machismo, aquela sacanagem, aquela excessiva sexualização das crianças, tudo é representativo de uma época triste para a construção da autoimagem das pequenas potenciais mulheres, que não compreendiam a objetificação de algumas letras e só eram capazes de achar divertido tentar reproduzir a dança do bambolê.

Mas num outro momento nostálgico-vexatório, me deparei com a música Maria Chiquinha, de Sandy e Júnior (que quando eu era criança se pronunciava tudo junto e se imaginava que era uma entidade só). Não é mais um caso de hipersexualização, de inadequação para a idade. Ali a coisa é outra. É infinitamente pior.

Maria Chiquinha é a esposa de Genaro, meu bem (única alcunha disponível na canção). Ela vai para o mato e quando volta, é indagada pelo marido: o que você estava fazendo no mato? Poderia ser uma pergunta ingênua, mas era o começo de uma argumentação-armadilha para encurralar Maria e acusa-la de traição.

Maria, imagem da mulher traiçoeira, dissimulada, mentirosa, “inventa” uma série de respostas para as perguntas cada vez mais perspicazes de Genaro, meu bem. Era uma mulher, com a saia amarrada na perna, de bigode de jamelão (momento cultura de Sandijunior porque eu nunca soube o que era jamelão: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jamel%C3%A3o) fora de época e sem exemplares para comprovação porque parece que os pássaros também gostam dessa fruta.

Qual a conclusão de Genaro, meu bem? Traição. Se não há provas da fruta extemporânea, então há culpa. Maria, integrando o rol das mulheres dissimuladas da literatura, deve ter traído Genaro, meu bem. Qual outra opção? (Ah Capitu, por quanto tempo a história não lhe deu o benefício da dúvida porque, se há ambiguidade, então o erro é das mulheres, frívolas e escorregadias, e não da paranoia ciumenta de seu amado…).

Depois de ter concluído o óbvio, Genaro, meu bem, precisa limpar seu nome, recuperar sua honra. Coisa de macho! A solução é simples: cortar a cabeça de Maria Chiquinha. Não precisamos comprovar culpa para dar a ela a penalidade máxima, às mulheres “infiéis” não é preciso oferecer misericórdia. Sandy, numa interpretação bonitinha, engraçadinha, uma criança fazendo voz de choro, pergunta, desolada: o que você vai fazer com o resto Genaro, meu bem?

Porque vejam vocês: se ele tira a cabeça, ele resolve o problema. O problema dessas mulheres está ali, naquele desperdício por parte da criação de energia e matéria que fez surgir um cérebro acoplado ao corpo-objeto. Se eu tiro a cabeça tá de boa, extirpo o problema. Resolvido. Ela teria a punição merecida.

A resposta faz inveja a Alexandre Frota e o estupro admitido em rede nacional (aqui: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/03/alexandre-frota-confessa-um-crime-em-rede-nacional.html). Na voz de Júnior, um molequinho, as mulheres em potencial aprendem cedo o papel que elas têm de cumprir na sociedade. Aprendem logo cedo o seu valor. É Genaro, meu bem, que enfim sentencia: O resto (da dignidade de Maria; o resto de seu corpo-objeto; o resto de sua subjetividade; o resto que tinha valor, que não se podia desperdiçar; o que sobraria quando lhe tirasse as ideias; o que sobra de Maria ou da mãe de santo desmaiada e indefesa; esse resto para o qual macho que é macho deve sempre responder, deve sempre atentar, deve usar esse resto sempre que possível); “o resto? pode deixar que eu aproveito”.

Estão todxs ridículxs.

As pessoas reclamam: pega de um lugar melhor, tipo dali da frente. Daí agacham e fazem pose de que estão apreciando a obra de arte, com mão no queixo e tudo. A foto deve ter ficado boa, de baixo para cima, a obra do escultor aparecendo em primeiro plano. 

Todos se juntam na mesa da praça de alimentação do shopping para tirarem uma selfie. Aparece o pau de selfie, que é para caber todo mundo na foto. Todos se abraçam, uns fazem bico, outros viram o rosto de lado para que a foto eternize seu melhor ângulo. 

O casal está andando pela praça. Lugar bonito, arborizado, um caminho feito para andar de mãos dadas. O colega de trás vai dando as instruções: vira um pouco a cabeça, a mão de vocês tá meio torta, vamos do outro lado que a luz do sol tá atrapalhando.

Todas querem parecer cultas, querem parecer felizes, querem parecer apaixonadas. Mas apenas para as pessoas amigas do facebook, que seguem e são seguidas no instagram, e compartilham experiências em qualquer outra rede social. Porque pessoalmente, agorinha, no tempo presente, estão todos ridículos. O pau de selfie deixaria com inveja o inspetor bugiganga. O amor parece muito forçado quando você olha para o outro pensando apenas em si mesmo e em como seu sorriso não pode parecer forçado na foto. E você está apenas fazendo papel de boba na exposição. Mesmo.

Será que os espaços ocupados por corpos estão perdendo importância? Será que a outra que conta é só a outra que curte e compartilha? Você, adolescente da praça de alimentação, será que não percebeu que tem outra mesa de adolescentes logo ao seu lado? Quem sabe uma paquera, um contato. Quem você gostaria que achasse que você está lindo, sua namorada ou seus 534 seguidores? Para quem você está se exibindo? Qual a narrativa que interessa, quem é você? De verdade, quem é você?

As pessoas, corpos presentes, cheiros e passos, não parecem mais ser o que somos. Na vida virtual (se é que ainda é possível distinguir) escolhemos nosso melhor ângulo, compartilhamos opiniões embasadas, pensamos várias vezes antes de postar algo. Estamos o tempo todo policiando nossa imagem, fazendo propaganda de si, preocupados com o que o outro vai pensar, com qual grupo estamos nos identificando. Todas estamos construindo uma linha do tempo de sucesso, ascendente, interessante, criativa. O passado é uma torrente de boas memórias. O futuro é certeiro, é lindo. Há pássaros ao fundo, uma imagem de pôr-de-sol. E o presente é uma constante, mesmo na tristeza, a tristeza é estética, é limpa. Na vida real, há barulho, há tropeços, há suor. Há lágrimas, inchaços, há espirros. Há caretas, não essas performáticas, essas caretas-bonitas para parecer descolada. No mundo em que o tempo e o espaço são medidas que efetivamente nos afetam, a gente tem se permitido parar em frente a um lugar e fazer cara de paisagem, tentando tirar uma foto que pareça espontânea. E quando não parece espontânea o suficiente, apaga-se a foto e tenta-se de novo, talvez abrindo menos a boca, olhando mais para cima.

Mas eu sou dessas que ainda acha que a vida real é espontânea mesmo. Que as pessoas ainda tem cheiros e tiram meleca do nariz. Eu sempre paro para ver uma selfie. Não essas que todos postam, mas a selfie no tempo do agora. Estão todxs ridículxs.

Eu(m) surto

Estou sempre a um passo do surto

Um só sapato entre mim e o absurdo

Tropeço no abismo, de cara no muro

Um passo há, entre mim e o outro mundo.

 

Preciso de um instante que seja surdo

O tempo do agora não faz sentido

Meu algo aqui está ficando louco

Não há distinção entre o cheio e o vazio.

 

Há muito barulho, há um burburinho

Um diz-que-me-disse de desatinos

Eu sei que se fecho os olhos, há medo

e se os abro, há luz em exagero.

 

Eu vou enlouquecer, eu trilho o caminho,

eu sei, eu sinto, já sou quase gritos.

Mas se ainda sei distinguir os sussurros,

das leis da física e do outro mundano.

 

Só quero desejar bom dia ao porteiro

sem despejar nele meu eu insano.

Balas, chicletes pirulitos e salgadinhos.

Moça, me dá um salgadinho desses, passa ele trôpego e maltrapilho, um trapo humano que ainda vagueia embora seu olhar não acompanhe o movimento, ele passa e pede um salgadinho. Não dou não, diz ela nervosa, aflita, as mãos nervosas e suadas passando pelos salgadinhos que estavam no carrinho, protegendo suas moedinhas de todo dia, não dou não, foi o que ela disse com a boca crispada e sem olhar nos olhos dele. Outra, consumidora de salgadinhos em mãos, oferece o seu, já sujou o suficiente os dedos daquele farelo amarelo e do sal excessivo dos salgadinhos baratos, que mais parecem isopor com corante, pode ficar com o meu, foi o que ela disse a ele. Ele sai, pernas bambas sob a força do álcool, sob a força do mundo, das responsabilidades, desabando sob a força da solidão, ele e o salgadinho vão embora trôpegos, ele mantendo-se em pé por um equilíbrio quase sobrenatural, o salgadinho ficando pelo caminho a cada bambeada.

Se ele tem dinheiro para cheirar e para beber, ele tem dinheiro para comprar um salgadinho, diz a senhora sem muita convicção, olhando ainda do chão para o carrinho de balas, angustiada e pesarosa de não ter podido oferecer o salgadinho, mas com voz de quem se convence com o argumento, fica aí gastando o dinheiro com porqueira, pode comprar comida da minha mão, já um pouco mais resoluta. O ponto de ônibus está cheio, há muita gente e é preciso vender as balas, chicletes, pirulitos, salgadinhos, biscoitos, ela não o diz mas pensa, justificando sua recusa, é preciso ganhar a vida. Olha minha filha, tenho 63 anos e já vivi muita coisa. Eu mesma empurro meu carrinho, ando quase uma hora com ele para poder vender minhas coisas nesse ponto, se ele quisesse ele faria como eu e compraria umas coisas e as venderia e teria dinheiro né, ela conversa com a moça sentada no ponto de ônibus, a do salgadinho, embora no fundo ela tenha começado um diálogo com o passado. Eu sou da época em que se valorizava o trabalho, minha mãe e meu pai trabalharam duro, não era como hoje em dia que esses marginais acham que podem viver assim não.

A moça que aguardava o ônibus rende o assunto, essas conversas que se tem ao longo da vida mas que quase nunca se dá importância, embora muito provavelmente seja importante para uma das partes, decerto não o é para a moça que só aguarda seu ônibus passar, doida para chegar em casa no domingo a tarde, ver a família, talvez ainda dê tempo de assistir um pouco da televisão, mas ela diz: é, minha mãe fala mesmo que era muito diferente né.

Ô minha filha, eu ainda me lembro de quando eu tinha 15 anos, era mamãe quem penteava meu cabelo, tinha muito cuidado a mamãe, esse tópico não tem nenhuma relação com o salgadinho mas é preciso compreender que o diálogo é com o passado, e não com o ponto de ônibus. Na minha época a gente usava um vestido rodadinho assim, diz ela mostrando na cintura o pregueado do vestido, era de uma chita bonita, de flores, não tinha isso de usar calça não, só calça de pijama, ela diz e repete o gesto do vestido como se pudesse vesti-lo naquele momento, o vestido e o passado. Mamãe sempre dava um jeito de comprar uns vestidos bonitos, ou então ela mesma fazia. O ponto de ônibus é um espaço rotativo, a essa hora quem acompanha já não é mais a moça do salgadinho, mas a que estava sentada logo ao lado, com a filha de uns 8 anos sentada com os pés balançando sem alcançar o chão do banco, tentando entender o vestido de chita e o mundo do trabalho de antes. Não tinha essas coisas de colocar no cabelo não, a gente usava laço de fita, ela tenta explicar para a mocinha como era o outro lado da conversa, o muito tempo atrás que a espreitava ali e agora. Você acredita, hoje em dia minha filha quer sair para uma festinha e quer usar salto alto, veja só, a infância não é mais como antigamente, faz o seu papel a mãe que aguarda o ônibus, quem sabe a situação não lhe permite um momento de educação e repreensão da filha, boas mães não perdem a oportunidade de se fazerem entender. Ela quer usar salto alto e maquiagem, vê só.

Mas a senhora não quer ver, não quer entender, ela ainda está tentando ajustar o vestido e o laço de fita, ela ainda quer percorrer todos os quilômetros rodados com aquele carrinho para vender suas balas, ela quer fazer o trajeto de novo, dessa vez com os cabelos penteados pela mãe, com um lindo laço de fita que os segura no lugar, já não sei mais se o cabelo e o passado, nesse momento a veste é do corpo e da alma, é como se calçasse a dor da solidão com os tamancos baixinhos que ela usava quando criança, e não com salto alto. Ela queria apenas que a mãe voltasse a penteá-la, quem sabe afugentar esses perigos da venda a que ela está submetida, como ter que negar comida a um bêbado ou suportar a rotatividade do ponto de ônibus que insiste em levantar e se ausentar e se sentar e soltar meia dúzia de palavras sobre o clima e o passado idealizado antes de se assentar numa poltrona e seguir viagem, ela queria usar seu vestido de chita que era rodadinho assim e ficar sentada com os pés balançando sem alcançar o chão, pedir bala para a mãe e a mãe negar dinheiro.

Ela leva o mundo naquele carrinho, embora só venda as balas, os chicletes, pirulitos e salgadinhos. Ela anda quase uma hora com o mundo inteiro ali, naquela caixa de isopor que também leva refrigerantes e água mineral, ela recarrega a bateria do mundo todos os dias ao reabastecer da bala preferida do ponto de ônibus, provavelmente aquela que se paga com o troco da passagem, ela reabastece o mundo inteiro todos os dias, ela encara o mundo de frente a cada vez que diz não a um pedinte. Ela carrega 63 anos de história, de solidões, de decepções, de dores na lombar. Mas ela queria mesmo era passear com o vestidinho de chita, com o mundo todo à sua frente. Sem carrinho, sem pedintes, sem ouvintes desatentos. Ela, o passado, o vestido, o tamanco baixinho e o laço, servindo de veste para o ponto de ônibus, deixando um pedacinho de solidão com cada um dos viajantes, muito além das balas, chicletes, pirulitos, salgadinhos. Muito além.

16 de dezembro, chuva fraca de verão.

A cada pingo que cai, há uma explosão de respingos como resposta. O chão faz tanta festa pela chuva que cai, enquanto a gente se esconde sob guarda-chuvas. Cada pingo explode no asfalto, para depois correr em fila para o resto do mundo. E a gente fugindo da chuva, correndo para debaixo das marquises. E é por isso, moça, que não quero fechar a janela do ônibus. Quero que cada gota venha explodir na minha pele.

(será que se eu tivesse explicado isso tudo ela teria ficado menos brava?)