Assim eu quereria minha primeira crônica

Ele desce do ônibus assustado. Que lugar enorme, é o que pensa sua pequena cabeça, enquanto as mãozinhas ainda em construção seguram-se firmes na porta do ônibus. Os demais passageiros o pressionam, querem seguir a vida que para na estrada, mas que reinicia na cidade, nessa grande cidade que o assusta. E ele desce, assustado demais para proferir qualquer palavra. Para que lado eu vou, é o que se pergunta. Sua vontade era se sentar bem ali, na fila que começa a formar-se para a próxima viagem. Se ele pudesse, se sentaria bem ali e esperaria que sua mãe chegasse, junto com os seus irmãos, reclamando a vida e a falta de dinheiro, a sobra de filhos e a falta de amor, a dura vida de uma mulher abandonada pela vida e pelos amores.

Mas ela não ia chegar. Seus irmãos não estariam ali para brigar com ele, para roubar-lhe o melhor pedaço do pão, aquele no qual ele passou mais margarina e onde tem mais miolo, que ele sempre deixava para comer por último. Você já está bem crescido, já tem 12 anos meu filho, foi o que disse sua mãe, aos prantos. Você já é um homem, e precisa agir como tal. Vamos, levante esse rosto moleque, e não chore, que filho meu não foi feito para chorar. Você vai viajar, vai ganhar a vida na cidade grande, e há de voltar trazendo muito orgulho a sua mãe tá bom, foi o que ela disse antes que ele embarcasse.

Ele, ele só queria um carrinho. Ele não queria ganhar a vida, essa já lhe veio de graça, sem esforço, sem papai noel ou bom comportamento. Mas ele agora não podia mais acreditar em papai noel ou brincar de polícia e ladrão, sempre em dúvida se deveria querer ser o policial que oprimiu e levou seu irmão mais velho, ou o ladrão que o padre da paróquia dizia que ia para o inferno. Agora ele é um homem, sozinho nessa rodoviária, de mãos tão pequenas que não conseguiriam segurar a arma do policial ou do ladrão, na prática não fazia diferença, suas mãos eram pequenas demais para os ofícios dos homens adultos, mas sua idade não queria mais nas suas mãos o carrinho, ou não deveriam querer, era o que pensava sua mãe.

Suas mãos agora estavam ocupadas, uma apoiava-se na parede, a outra estava sobre a barriga, que já chegava na cidade grande exigindo. Era esse o gesto que fazia quando estava com fome. Sua mãe sempre sabia, você não para de comer moleque, era o que sempre perguntava enquanto tentava achar algo na geladeira.

Então pisou firme. Era um homem agora, um homem! Limpou discretamente a lágrima que teimava em denunciar sua meninice e saiu daquela rodoviária com passos certos e cabeça erguida, como um homem. Atravessou a rua estreita que daria numa grande praça, a praça da rodoviária. Andou por ela destemido, corajoso, desejoso em abrir e engolir aquele mundo todo que o esperava.

Mas a praça desdobra-se em múltiplos caminhos, outras tantas ruas longas e estreitas, rios de gente que atravessavam todos os lados, tantos carros e barulhos e luzes, ruas de gente e rios de asfalto, tanta coisa para aquelas mãozinhas, seus olhos pretos e redondos não davam conta de tanto novo, aquela mochilinha nas costas que era a única coisa que o abraçava e o acompanhava agora. E foram com esses grandes olhos que me deparei. Grandes olhos de jabuticaba que assentavam numa pequena cabeça de criança. A mochila rosa devia ser da irmã. Grandes olhos tão assustados, tão desamparados que atraíram meus olhos desatentos de passageira de ônibus. Nossos olhos se cruzaram, pegaram um ao outro, e a única coisa que eu queria é poder abraçar a ele e a mochila, pegar aquelas mãozinhas e dizer que vai ficar tudo bem. Comprar o melhor carrinho do mundo, ajudar a escrever a cartinha no natal.

Mas não, não ia ficar tudo bem. Eu segui, ele ficou. Ele, a rua e a mochila. Eu e o papel, que o acolhia sem que ele pudesse, que o abraçava sem que ele se desse conta, que poderia virar no máximo barquinho caso ele o encontrasse, seguimos viagem.

Assim eu quereria minha primeira crônica: que fosse densa como esses grandes olhos pretos.

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Autor: Pâmela Côrtes

Faço literatura de banco de praça. Gosto de pessoas que falam sozinhas. Não gosto de esperar em consultório médico. Sou uma ótima ouvinte, mas crio histórias e respostas paralelas enquanto escuto. Pareço simpática, mas sempre imagino com qual animal as pessoas se parecem. Sempre arranjo algum. Não vou te contar o seu. Gosto de acordar cedo. Não gosto de pimentão. Não sei tirar foto, não sei fazer música, durmo de meias, não tenho foto minha na tela do celular, não entendo nada de bebidas, sou viciada em informação estúpida de fácil digestão e em quebra-cabeça (ambas em recuperação). Pareço profunda, mas não se engane, cago, mijo e peido como qualquer um.

Uma consideração sobre “Assim eu quereria minha primeira crônica”

  1. A pergunta

    No caminho do poeta três esquinas.
    A quarta se fez esconder entre as brumas.
    O que vai querer perguntou-lhe a coruja.
    Tudo saber.
    Tudo ser.
    Tudo ver?

    Riu-se o tolo e disse.
    Tudo saber perde a graça.
    Tudo ser, a essência.
    Tudo ver, leva a demência.
    Eu quero é,
    Descobrir o início e o fim da quarta esquina.

    Foi-se nas brumas mergulhar
    que tolo,
    viu-se no mundo a despertar.
    Em prantos encontrou o início.
    Nos primeiros passos
    o caminho,
    No fim, as brumas lhe voltaram,
    na mente se alojaram.
    De novo veio lhe a pergunta;
    O que queres agora?

    Sorrindo, o tolo respondeu:

    Tudo vi, nada sei, tudo sou.
    Dê-me novos horizontes à percorrer.
    Ainda tenho sobre muito
    o que escrever.

    =) Vou te acompanhar em sua jornada! Pois se escreve, leio.

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