Cheia.

Com o rosto colado no espelho, ela mirou bem fundo no fundo dos olhos. Dizem que ela poderia ter vislumbrado o funda da alma, mas ela não acredita que tenha feito isso. Porque ela só foi capaz de enxergar aquela cor indefinida entre um marrom sem graça e um preto discreto que fechava a íris. Se ela pudesse vislumbrar a alma, decerto teria outras cores. E brilharia. E de preferência, seria capaz de responder a todos os anseios, feito um raio-x da coisa interna toda.

Mas é fato que aquele era apenas o seu rosto, aqueles eram apenas olhos e ela apenas olhava a si mesma no espelho. Nada dessa coisa de alma. Ela, apenas. O que ela via era um rosto até bem simétrico. Ela avaliava o desenho, a tonalidade. Ela via o que qualquer um via quando mirava aquele rosto. Era aquilo apenas, um rosto. Um rosto no espelho que era apenas espelho, a luz fraca era apenas luz, os cachorros que latiam durante a noite nada mais eram que cachorros fazendo aquilo que faziam como cachorros. Nada ali havia de diferente, ou de igual. Era apenas, metafísica sem conceito e sem graça.

Sem mais, sem menos, só ela. Nada de histórias interessantes nem cicatrizes. Um amor perdido para contar, mas que nem doía mais. Uma boa vida, uma boa casa, uma boa aparência. Uma imensa normalidade, se é que imenso é uma palavra que se adequa a tudo tão toda vez, aquela coisa morna de quem se percebe terrivelmente dentro dos padrões, alguém que era apenas alguém. Abriu o armário, eram as mesmas coisas de sempre. Nada de muito luxuoso nem extravagante, nada de muito criativo ou colorido. Eram apenas roupas e sapatos amontoados, tal como ela era um amontoado de coisas normais que a vida a fez levar nas costas, sem pesar-lhe a coluna ou deixar-lhe com aquela postura decaída de quem viveu o mundo demais. Era o peso certo para um alguém tão alguém.

Foi ao banheiro. Lavou o rosto, aquele que era até bem simétrico. O de sempre, aquele que a encarava sem querer dizer nada de novo, sem querer desfiar-lhe elogios ou apontar-lhe defeitos. Mirava-a apenas, aqueles olhos de formato normal e cílios grandes, aquele nariz sob medida para um rosto sob medida para a vida medida para estar sempre na medida certa. Escovou os dentes, como qualquer um faz ou deveria fazer caso queira conservar seu sorriso que ela atirava sem muita importância, todo aquele que leva seu dentista minimamente a sério também o faria, escovar os dentes. Quase meia-noite já, hora de dormir, e a escovação antes do sono era fundamental. Livrar-se das placas, do tártaro e do resto do lanche que fez enquanto via um filme qualquer, um lanche qualquer. Essa era sua meta naquele momento, limpar os dentes, a boca, o sorriso. E ficou limpo, era o que verificava enquanto analisava os dentes no espelho, que tão bem assentavam no rosto de sempre.

No banheiro, ela pensa, somos todos iguais. Porque aqui todos fazemos coisas que não gostaríamos que alguém soubesse que fazemos, embora saibamos que todos façam coisas bem parecidas. Mijou tranquila, antes de dormir, que é para que não precisasse levantar-se durante a noite. E mijou como qualquer um, ouvindo um barulho tão típico que mal se repara, quando o líquido que dela saía encontrava o líquido que ali esperava para que fosse, a solução toda, embora para algum lugar que não importava. O certo é que iria embora, como todos os outros mijos do mundo. Mas há muitos que não vão dessa mesma forma, pensou ela se solidarizando com todos os pobres do mundo que não tem uma privada para usar. Então ela fez como todo mundo, preencheu esse sentimento com a esperança de um mundo melhor, e fez isso enquanto subia as calças e dava a descarga. Lavou as mãos, e mirou-se no espelho.

E voltou ao quarto, estava na hora de dormir. Foi então que, ao olhar de relance pela última vez aquele rosto de sempre antes de apagar as luzes para deixar deitar o sono, ela viu. Viu mais que aquele rosto, aquelas experiências que o corpo colecionava como se fossem figurinhas, aqueles amores e cheiros que o corpo não chegava a assumir como significativos, as lembranças da infância comum da vida comum da pessoa comum. Viu mais do que aquela que ela sempre via, pela qual esperava, que iria dormir e acordar sem sustos logo pela manhã e continuar a fazer o que sempre fazia, ela e todo o resto.

Ela viu, ela sentiu, ela foi capaz de enxergar plenamente todo o vazio que a consumia. Ela foi capaz de ver a inexistência, aquele espaço de ecos, em que ela gritava sem respostas. Ela enxergou o vazio que a definia, que a preenchia, aquele vazio todo que era ela e toda aquela simetria e aqueles olhos e aquelas roupas e sapatos e perfumes. Ela sentiu um peso nas costas de não botar defeito a nenhum sísifo, um peso gigantesco de quem já viveu muita coisa, de quem tem aventuras boas de ouvir num domingo a tarde, ela sentiu todo o peso do vazio.

Um peso tão difícil de carregar que ela não foi capaz de fazê-lo. Diferente de todos os outros dias, ela sentiu a coluna ceder sob o peso daquela angústia, ela sentiu as pernas bambearem, a respiração ofegar, sentiu aquele rosto dizendo mil coisas que ninguém jamais ouviu, aquelas roupas vestindo sensações que ninguém jamais experimentou, ela olhou para aquelas mãos tão bem conservadas pelo creme hidratante com fator de proteção solar 25 que enfim compreendiam, de maneira tátil, o tamanho daquele vazio. Ela apalpou o vazio como se apalpasse o pedaço de carne mais denso e escorregadio que jamais experimentou, algo como aquele pedaço de bife de carne de quinta que ainda espera sua sina, molhado e feio, tão vazio de significação como aquilo que ela via.

Ela era só mais alguém, que esperava coisa alguma enquanto fingia caminhar rumo a alguma coisa. Alguém que olhava pro alto e só via o céu, olhava para baixo e via a poeira de quem há tempos não varre o quarto, olhava para si e via um pedaço de bife de carne de quinta que jamais saberia qual é a sua sina, que jamais experimentaria a frigideira ou o congelador, que viveria o morno como se fosse gostoso e apreciaria o tempero do abate como se fosse para o seu próprio paladar, sem saber esse bife de quinta que aquele gosto jamais seria seu. Aquelas roupas não vestiam nada além de uma bunda e um peito, protegia-os da cobiça e das intempéries, ou mostrava-os de maneira a atiçar sem constranger.

Esse era o peso de ser o vazio que todo mundo é, esse vazio que nos iguala enquanto metafísica cotidiana, enquanto rotina de dentes limpos e mijo na privada, essa coisa vazia de comprar as roupas que nos representam, como se fôssemos algo além da nudez para ser representado. Não era um peso para os ombros tão frágeis e magros e inexperientes como os dela, deveriam pesar sísifos e heróis, atletas de olimpíadas e gente importante, não ela, alguém comum numa vida comum que se desfaria da própria vida num desfecho comum e desimportante. Ela não tinha sido feita para sentir toda essa imensidão de coisa nenhuma, esse vazio que preenchia cada curva do rosto como se fosse parte da sua maquiagem leve de dia a dia que ela ficou com preguiça de tirar antes de dormir.

Então ela chorou. Chorou a alma que ela não era capaz de ver no espelho, chorou o mijo de quem não tinha privada, chorou aquele monte de porcaria inútil que só servia para ocupar espaço no armário e na cabeça, fingindo objetivos melhores que o de eliminar toda a placa bacteriana e a gengivite, chorou aquele rosto feio e sem grandes formas que passaria discretamente por qualquer um, chorou aquele corpo que era um corpo cheio de hematomas de quina de mesa, sem os pêlos como cabia a uma qualquer, aquele corpo que fedia e arrotava e cagava mas que deveria esconder-se de si e do mundo com desodorantes e privadas, essas que nem todos podiam usar para esconder o vazio que se anunciava quando expectorávamos nossas secreções, chorou o mundo que era qualquer mundo tanto quanto ela.

Chorava e encarava aquele choro feio, que enrugava e inchava aquele rosto, que deixava os olhos de outra cor tal qual seria se ela tivesse visto a alma. Seu rosto todo avermelhava, chorava todas as cores primárias e secundárias, chorava todo aquele vazio que era tudo aquilo que ela era. Chorou tanto que, em meio a todo aquele nada que ocupava o cômodo, passou a sentir-se tão molhada das lágrimas que o corpo começava a a tremer de frio. Chorava tanto que começava a inundar o quarto, a molhar todas as roupas bem dispostas no cabide, chorava a ponto de começar a atrapalhar e turvar a visão daquele rosto sem alma, chorava tanto que poderia mijar sem que fosse capaz de ouví-lo, chorava, chorava. O quarto enchia-se de água, logo a casa toda estava com gosto de soro tal qual a lágrima de qualquer um e da dela, sua angústia respingava em cada parede e molhava, seus eletrônicos já não lhe serviriam de nada agora que estavam encharcados, seus papéis jamais seriam lidos outra vez já que a água não lhes guarda a palavra, chorava tanto a ponto de inundar tudo ao seu redor com aquele vazio salgado.

Logo seu bairro estava tão cheio de lágrima que se era capaz de encontrar moisés a catar casais de coisa viva para viver enquanto o resto afogaria, chorava o dilúvio de cada um que era tão vazio quanto ela mas que jamais viu-se nesse nada, fingindo que mijar e vestir e cagar davam o toque final a um arremedo mixuruca de vida e de alma. Ela chorava em nome de todo o vazio do mundo, e era tanto vazio, tanto mundo e tanto choro, que ela percebeu qual a tragédia que a aguardava no final de toda essa trama. Ninguém foi capaz de acordar para acudí-la, ninguém sentiu que se molhavam os fundilhos de algo que não era mijo, ninguém percebeu que estava afogando em lágrimas de um vazio de existência que era capaz de contaminar o mundo e o sono de cada um. Ninguém nem nada nem bóia nem herói de filme seria capaz de salvá-la, já sem respirar e sentindo aquele gosto tão típico da tristeza, tão salgado, já ardia os olhos e os pulmões, já era capaz de sentir que precisaria dar aquele suspiro involuntário que dizem que mata nos afogamentos, que permitiria que as lágrimas invadissem o trato respiratório e fizessem o caminho inverso para o qual foram desenhadas, e lhe entrariam as lágrimas pelo sorriso e pelos dentes sem tártaro, decerto já estava adentrando pela uretra, já não mantinham a proteção 24 horas do creme hidratante, seu corpo sentia pela primeira vez, todo ele, todo o vazio, toda a angústia de uma existência sem cores, sem cheiros, sem marcas. Então suspirou, deu aquele último suspiro poético enquanto nem mesmo se debatia ou implorava por socorro. Ela sentia, ela era algo além do mesmo que sempre fora, ela estava morrendo no próprio choro, provavelmente seria manchete, seria importante, sua existência não seria como a dos outros, ela se afogava em seu quarto enquanto todos estavam firmemente agarrados às suas bóias de todo dia que os guardavam da dor do vazio, do nada. Deu o último suspiro e enfim morreu, mais cheia que qualquer um jamais foi capaz de ser

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Autor: Pâmela Côrtes

Faço literatura de banco de praça. Gosto de pessoas que falam sozinhas. Não gosto de esperar em consultório médico. Sou uma ótima ouvinte, mas crio histórias e respostas paralelas enquanto escuto. Pareço simpática, mas sempre imagino com qual animal as pessoas se parecem. Sempre arranjo algum. Não vou te contar o seu. Gosto de acordar cedo. Não gosto de pimentão. Não sei tirar foto, não sei fazer música, durmo de meias, não tenho foto minha na tela do celular, não entendo nada de bebidas, sou viciada em informação estúpida de fácil digestão e em quebra-cabeça (ambas em recuperação). Pareço profunda, mas não se engane, cago, mijo e peido como qualquer um.

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