Contra toda a burguesia reacionária, o Guarani Kaiowá!

Existem dois tipos de opiniões políticas nas redes sociais, a do leitor da Veja e a do leitor da Carta Capital. Eles são opostos tal qual direita e esquerda, frio e quente, revolucionário e reacionário. O leitor da Veja é o Almeidinha, aquele que sente saudades do tempo da ditadura, quer um emprego estável até que a aposentadoria chegue, e adora destilar seus preconceitos em fotos hilárias do facebook (muito bem explicado aqui: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/direitos-humanos-para-humanos-direitos/)

Do outro lado, seu opositor natural é o Guarani Kaiowá. Esse sente saudades dos tempos revolucionários, dos fortes movimentos socialistas. Acredita piamente que seria muito mais feliz se morasse em Cuba, acha Fidel Castro um chuchuzinho, junto com Evo Morales e Hugo Chávez. Acredita sinceramente que o poder expandido e interminável de Chávez é a vontade do povo, a democracia que não serve ao patronado, a liberdade advinda de anos sob um mesmo comandante.

O mesmo não se aplica ao Brasil, é claro. A Dilma e a continuidade do PT demonstram uma ditadura, nossos eleitores não tem opção se só podem votar no PSDB extrema direita reacionário burguês patrão malvado e bobo, ou no PT centro-direita oportunista traidor do movimento. Bom seria se fossem todos Vanessa Portugal ou se fossem todos Plínio ou se fossem todos revolucionários de movimento estudantil, como eles. A pluralidade, pfff, ela serve no campo social. Grupos minoritários viram até sobrenome quando o poder do sistema os massacra, são os Kaiowás do facebook, diretamente do iphone para a militância virtual. Na política não, os inimigos querem apenas alienar o povo, destitui-los de massa crítica, emburrecer. A veja e o PIG e toda uma conspiração arquitetada nos porões das bolsas de valores programada para oprimir o trabalhador e encher os bolsos de dinheiro, sou capaz de ouvir uma risada maléfica ao final dessas reuniões, com cuecas cheias de dólares e vários charutos cubanos.

O Guarani Kaiowá não está pronto para lidar com o seu opositor Almeidinha. Ele não consegue manter 10 minutos de saudável discussão, ele inflama, ofende seu opositor, fica bravo, clama pelo bom senso, pela justiça social, pela lógica, pelo Marx, pelo feminismo, pelo direito do povo, pelas ocupações. Existe apenas um caminho certo, o dele. O outro é apenas o caminho do alienado, do não-esclarecido, do burguês branco classe média. Discordar dele é assinar um atestado de riqueza, homofobia, machismo, branqueleza, burrice e incapacidade de raciocínio complexo. Alguns ainda são capazes de lidar com a discordância, sabem que nem todos estão preparados para a pílula vermelha. Te vê com bons olhos, um bom selvagem das redes sociais e do consumismo apenas esperando para ser salvo pela sabedoria proletária.

No fundo, ambos são retrato de um tempo que ainda não se encontrou. Cheios de saudosismos e heróis do passado, os colegas da casa dos 20 ainda não souberam achar sua própria bandeira. Estão sempre pulando de uma luta a outra, tentando preencher esse vazio que nos assombra a cada vez que fazemos check-in no facebook, seja no restaurante caríssimo da zona sul, seja na mística do Movimento Pelo Pobre. Precisam encontrar razões, causas, ideias unificadoras. Cada um precisa da sua Onda para seguir viagem, cada um repete seu mantra político-ideológico antes de dormir. Sem diálogo, cheios de estereótipos, frases feitas, acusações, compartilhamentos e vazios, cada um se acha porta-voz do mundo. E a cada grito inflamado, a cada berro incontido, a cada briga virtual, fico aqui me perguntando: será que, em algum momento dessa loucura em internetês, seremos capazes ouvir um ao outro,de nos ouvir, e construir algo que sirva e que traduza a bagunça informativa do século XXI? Ou ficaremos aqui, cuspindo e cantando, sendo os mesmos e vivendo como os nossos pais, caminhando e cantando e seguindo a canção, meus heróis morrendo de overdose, geração coca-cola, entre uma vitrola e um livro velho. Clássicos e clichês, para Almeidinha e Guarani Kaiowá nenhum botar defeito.

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Autor: Pâmela Côrtes

Faço literatura de banco de praça. Gosto de pessoas que falam sozinhas. Não gosto de esperar em consultório médico. Sou uma ótima ouvinte, mas crio histórias e respostas paralelas enquanto escuto. Pareço simpática, mas sempre imagino com qual animal as pessoas se parecem. Sempre arranjo algum. Não vou te contar o seu. Gosto de acordar cedo. Não gosto de pimentão. Não sei tirar foto, não sei fazer música, durmo de meias, não tenho foto minha na tela do celular, não entendo nada de bebidas, sou viciada em informação estúpida de fácil digestão e em quebra-cabeça (ambas em recuperação). Pareço profunda, mas não se engane, cago, mijo e peido como qualquer um.

Uma consideração sobre “Contra toda a burguesia reacionária, o Guarani Kaiowá!”

  1. E entre o Almeidinha e o Guarani Kaiowá, o que podemos esperar da atual geração, totalmente alienada das questões políticas e encantada com a possibilidade de saber das últimas de qualquer pessoa pelo face? Com as últimas do big brother? o último lançamento de um i-lixoqualquer?

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