Estão todxs ridículxs.

As pessoas reclamam: pega de um lugar melhor, tipo dali da frente. Daí agacham e fazem pose de que estão apreciando a obra de arte, com mão no queixo e tudo. A foto deve ter ficado boa, de baixo para cima, a obra do escultor aparecendo em primeiro plano. 

Todos se juntam na mesa da praça de alimentação do shopping para tirarem uma selfie. Aparece o pau de selfie, que é para caber todo mundo na foto. Todos se abraçam, uns fazem bico, outros viram o rosto de lado para que a foto eternize seu melhor ângulo. 

O casal está andando pela praça. Lugar bonito, arborizado, um caminho feito para andar de mãos dadas. O colega de trás vai dando as instruções: vira um pouco a cabeça, a mão de vocês tá meio torta, vamos do outro lado que a luz do sol tá atrapalhando.

Todas querem parecer cultas, querem parecer felizes, querem parecer apaixonadas. Mas apenas para as pessoas amigas do facebook, que seguem e são seguidas no instagram, e compartilham experiências em qualquer outra rede social. Porque pessoalmente, agorinha, no tempo presente, estão todos ridículos. O pau de selfie deixaria com inveja o inspetor bugiganga. O amor parece muito forçado quando você olha para o outro pensando apenas em si mesmo e em como seu sorriso não pode parecer forçado na foto. E você está apenas fazendo papel de boba na exposição. Mesmo.

Será que os espaços ocupados por corpos estão perdendo importância? Será que a outra que conta é só a outra que curte e compartilha? Você, adolescente da praça de alimentação, será que não percebeu que tem outra mesa de adolescentes logo ao seu lado? Quem sabe uma paquera, um contato. Quem você gostaria que achasse que você está lindo, sua namorada ou seus 534 seguidores? Para quem você está se exibindo? Qual a narrativa que interessa, quem é você? De verdade, quem é você?

As pessoas, corpos presentes, cheiros e passos, não parecem mais ser o que somos. Na vida virtual (se é que ainda é possível distinguir) escolhemos nosso melhor ângulo, compartilhamos opiniões embasadas, pensamos várias vezes antes de postar algo. Estamos o tempo todo policiando nossa imagem, fazendo propaganda de si, preocupados com o que o outro vai pensar, com qual grupo estamos nos identificando. Todas estamos construindo uma linha do tempo de sucesso, ascendente, interessante, criativa. O passado é uma torrente de boas memórias. O futuro é certeiro, é lindo. Há pássaros ao fundo, uma imagem de pôr-de-sol. E o presente é uma constante, mesmo na tristeza, a tristeza é estética, é limpa. Na vida real, há barulho, há tropeços, há suor. Há lágrimas, inchaços, há espirros. Há caretas, não essas performáticas, essas caretas-bonitas para parecer descolada. No mundo em que o tempo e o espaço são medidas que efetivamente nos afetam, a gente tem se permitido parar em frente a um lugar e fazer cara de paisagem, tentando tirar uma foto que pareça espontânea. E quando não parece espontânea o suficiente, apaga-se a foto e tenta-se de novo, talvez abrindo menos a boca, olhando mais para cima.

Mas eu sou dessas que ainda acha que a vida real é espontânea mesmo. Que as pessoas ainda tem cheiros e tiram meleca do nariz. Eu sempre paro para ver uma selfie. Não essas que todos postam, mas a selfie no tempo do agora. Estão todxs ridículxs.

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