O machismo grotesco da minha infância

Quase todo mundo que teve sua infância no início dos anos 90 sente uma certa forma de vergonha nostálgica ao analisar as letras das músicas da banda É o Tchan. Precisamos admitir: era vergonhoso mesmo. As coreografias eram ridículas, as letras eram completamente sacanas e a gente não fazia ideia do que tudo aquilo queria dizer (valeu aí pai e mãe). Aquele machismo, aquela sacanagem, aquela excessiva sexualização das crianças, tudo é representativo de uma época triste para a construção da autoimagem das pequenas potenciais mulheres, que não compreendiam a objetificação de algumas letras e só eram capazes de achar divertido tentar reproduzir a dança do bambolê.

Mas num outro momento nostálgico-vexatório, me deparei com a música Maria Chiquinha, de Sandy e Júnior (que quando eu era criança se pronunciava tudo junto e se imaginava que era uma entidade só). Não é mais um caso de hipersexualização, de inadequação para a idade. Ali a coisa é outra. É infinitamente pior.

Maria Chiquinha é a esposa de Genaro, meu bem (única alcunha disponível na canção). Ela vai para o mato e quando volta, é indagada pelo marido: o que você estava fazendo no mato? Poderia ser uma pergunta ingênua, mas era o começo de uma argumentação-armadilha para encurralar Maria e acusa-la de traição.

Maria, imagem da mulher traiçoeira, dissimulada, mentirosa, “inventa” uma série de respostas para as perguntas cada vez mais perspicazes de Genaro, meu bem. Era uma mulher, com a saia amarrada na perna, de bigode de jamelão (momento cultura de Sandijunior porque eu nunca soube o que era jamelão: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jamel%C3%A3o) fora de época e sem exemplares para comprovação porque parece que os pássaros também gostam dessa fruta.

Qual a conclusão de Genaro, meu bem? Traição. Se não há provas da fruta extemporânea, então há culpa. Maria, integrando o rol das mulheres dissimuladas da literatura, deve ter traído Genaro, meu bem. Qual outra opção? (Ah Capitu, por quanto tempo a história não lhe deu o benefício da dúvida porque, se há ambiguidade, então o erro é das mulheres, frívolas e escorregadias, e não da paranoia ciumenta de seu amado…).

Depois de ter concluído o óbvio, Genaro, meu bem, precisa limpar seu nome, recuperar sua honra. Coisa de macho! A solução é simples: cortar a cabeça de Maria Chiquinha. Não precisamos comprovar culpa para dar a ela a penalidade máxima, às mulheres “infiéis” não é preciso oferecer misericórdia. Sandy, numa interpretação bonitinha, engraçadinha, uma criança fazendo voz de choro, pergunta, desolada: o que você vai fazer com o resto Genaro, meu bem?

Porque vejam vocês: se ele tira a cabeça, ele resolve o problema. O problema dessas mulheres está ali, naquele desperdício por parte da criação de energia e matéria que fez surgir um cérebro acoplado ao corpo-objeto. Se eu tiro a cabeça tá de boa, extirpo o problema. Resolvido. Ela teria a punição merecida.

A resposta faz inveja a Alexandre Frota e o estupro admitido em rede nacional (aqui: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/03/alexandre-frota-confessa-um-crime-em-rede-nacional.html). Na voz de Júnior, um molequinho, as mulheres em potencial aprendem cedo o papel que elas têm de cumprir na sociedade. Aprendem logo cedo o seu valor. É Genaro, meu bem, que enfim sentencia: O resto (da dignidade de Maria; o resto de seu corpo-objeto; o resto de sua subjetividade; o resto que tinha valor, que não se podia desperdiçar; o que sobraria quando lhe tirasse as ideias; o que sobra de Maria ou da mãe de santo desmaiada e indefesa; esse resto para o qual macho que é macho deve sempre responder, deve sempre atentar, deve usar esse resto sempre que possível); “o resto? pode deixar que eu aproveito”.

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Autor: Pâmela Côrtes

Faço literatura de banco de praça. Gosto de pessoas que falam sozinhas. Não gosto de esperar em consultório médico. Sou uma ótima ouvinte, mas crio histórias e respostas paralelas enquanto escuto. Pareço simpática, mas sempre imagino com qual animal as pessoas se parecem. Sempre arranjo algum. Não vou te contar o seu. Gosto de acordar cedo. Não gosto de pimentão. Não sei tirar foto, não sei fazer música, durmo de meias, não tenho foto minha na tela do celular, não entendo nada de bebidas, sou viciada em informação estúpida de fácil digestão e em quebra-cabeça (ambas em recuperação). Pareço profunda, mas não se engane, cago, mijo e peido como qualquer um.

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