O problema do excesso de amor no teatro e na vida acadêmica: como o amor pode colaborar para a precarização do trabalho.

Nesse momento, minha vida profissional está dividida em duas frentes (de batalha pela vida, quase), a área acadêmica e o teatro. E percebo que há uma infeliz semelhança entre essas duas áreas: o excesso de amor.

É isso. Essa coisa de amar o que se faz pode ser muito bom para a realização pessoal e para posts no facebook e para os assuntos nas reuniões familiares e para se gabar para os amigos e para dormir bem à noite. Mas para a área em si, isso é extremamente perigoso.

Vejam vocês, quase todo mundo que trabalha com teatro que conheço ama o que faz, mas sabe muito bem que é quase impossível viver disso. Isso porque tem pouco dinheiro circulando em ainda menos mãos. É raro ter emprego fixo e estável e, quando há, não necessariamente as coisas são encaradas de forma profissional. Com frequência, se você tem uma ideia ou uma peça que quer fazer dar certo, deve se preparar para gastar dinheiro para trabalhar. Gastar dinheiro para trabalhar, perceba, é diferente de investimento. As chances de retorno são muito pequenas, exceto se você tem uma peça de comédia, mas em regra não é com isso que os amantes do teatro sonham. Há uma verdade indesejável, cruel até, mas que se aplica, ao menos para o meu círculo de convivência: só consegue viver de teatro quem já não precisava da renda do teatro mesmo. Quem não precisa de dinheiro, vive de amor e arte e realização pessoal. Mas isso acaba impedindo muita gente boa de entrar nesse mercado, assim como expulsa outros tantos bons que não tem o apoio incondicional dos pais e acaba sendo absorvido pela segunda profissão (quase uma regra entre os amantes dessa arte).

Por outro lado, a vida acadêmica. Recebi esses dias um e-mail com um edital para professor voluntário da Faculdade de Direito da UFMG (que conta com excelentes pesquisadores em direito do trabalho e justiça e constituição e um discurso bonito de se ver). Isso mesmo. Um edital, provavelmente disputadíssimo, para trabalhar de graça esse semestre para a universidade. Uma honra! Não posso julgar os colegas que vão tenta-lo, eu mesma fui professora voluntária no semestre passado. Mas quão tóxico é esse amor pela profissão?

Só consegue ascender na carreira acadêmica quem não precisa do dinheiro por pelo menos 10, 12 anos. A vida acadêmica exige um alto investimento de tempo. Fazer pesquisa é demorado, é lento, exige tempo de ócio, exige muito tempo de leitura, exige tempo para maturação das ideias. Em compensação, os retornos são tristes no curto e médio prazo, e incertos no longo prazo. Você pode investir 10 anos da sua vida estudando e recebendo uma mixaria e, ao final, ganhar o mesmo tanto que se ganha em diversas outras profissões que exigem um investimento de tempo e uma qualificação muito menores.

Aliás, a vida acadêmica, ao menos no Brasil, funciona de forma a criar uma casta, uma oligarquia (na Faculdade de Direito, é impressionante o quanto os sobrenomes se repetem, e não estou falando dos Silvas ou dos Souzas): ser bolsista conta bastante para a ascensão acadêmica, e a bolsa exige dedicação exclusiva, ou seja, pelo tempo que você receber a bolsa você fica impedido de trabalhar em outras coisas. A ideia é que a bolsa seja para você estudar, comprar livros, participar de eventos. Não é relação trabalhista não. Eles te impedem de trabalhar, mas não se dão ao trabalho de te garantir, sei lá, seguro-desemprego. No entanto, qualquer um que já foi a um supermercado e abriu a carteira sabe que comida não cai do céu diretamente no seu prato. Se você tá comendo, tem alguém pagando. Se o dinheiro da bolsa não é para comer, então quem garante seu sustento? Novamente, pais incondicionalmente dedicados e com condição financeira boa o suficiente para que você possa ficar 10 anos, se possível, sem saber fazer uma lista de compras do mês.

E a gente aceita isso? Até segunda ordem, venho aceitando as regras desses dois universos. Trabalho com teatro e sempre fico muito triste quando, em dia de espetáculo, resolvo lanchar alguma coisa e percebo que gastei, para a realização do próprio trabalho, metade do dinheiro que vou receber. E na vida acadêmica, tô aqui, fingindo que isso tudo vai valer a pena no final do caminho porque, sei lá, quem sabe daqui a 7 anos eu consiga ganhar o suficiente para não ter que contar as moedinhas da passagem.

Eu pago as minhas contas com esses dois universos. Mas não se pode dizer que estou tranquila com a minha situação financeira. Teatro não é prioridade de ninguém em época de crise e o governo federal vem brincando de ameaçar cortar a bolsa tem uns três meses. Cada início de mês é uma emoção: cai, não cai, cai, não cai.

Arte e pesquisa não são trabalho não, são outra coisa. Quem precisa de dinheiro é que vá trabalhar.

E por amor né, a gente fica.

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Autor: Pâmela Côrtes

Faço literatura de banco de praça. Gosto de pessoas que falam sozinhas. Não gosto de esperar em consultório médico. Sou uma ótima ouvinte, mas crio histórias e respostas paralelas enquanto escuto. Pareço simpática, mas sempre imagino com qual animal as pessoas se parecem. Sempre arranjo algum. Não vou te contar o seu. Gosto de acordar cedo. Não gosto de pimentão. Não sei tirar foto, não sei fazer música, durmo de meias, não tenho foto minha na tela do celular, não entendo nada de bebidas, sou viciada em informação estúpida de fácil digestão e em quebra-cabeça (ambas em recuperação). Pareço profunda, mas não se engane, cago, mijo e peido como qualquer um.

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